
Pesquisadores questionam os limites da IA e exploram novas soluções
3 de abril de 2025 17:01Nos últimos dias, as redes sociais foram tomadas por uma nova tendência: versões animadas de fotos pessoais, que transformam usuários em personagens no estilo do Studio Ghibli. A funcionalidade, disponibilizada gratuitamente pelo ChatGPT, faz parte das ferramentas desenvolvidas pela OpenAI, empresa norte-americana especializada em inteligência artificial.
Embora a IA esteja se consolidando como uma das tecnologias mais influentes da atualidade, seu avanço também levanta discussões sobre desafios e limitações. Diante desse cenário, um grupo de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) busca explorar caminhos alternativos para o uso da inteligência artificial, priorizando a interpretação humana e a colaboração.
A iniciativa, financiada pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), é fruto de uma parceria entre a UnB e a Universidade de Troyes, na França. Enquanto os pesquisadores franceses aprimoram funcionalidades da ferramenta TraduXio, os brasileiros testam sua aplicabilidade e viabilidade.
Diferente dos sistemas tradicionais baseados em previsão e automação, essa tecnologia opera por meio da assistência à análise e à tomada de decisões. Se os testes confirmarem sua eficiência para uso cotidiano, a proposta poderá ser considerada um avanço significativo no setor.
A expectativa dos especialistas é que os resultados contribuam para a formulação de políticas sobre a regulação da IA e inspirem novas abordagens tecnológicas. “A inteligência artificial tem um potencial imenso, mas precisa ser constantemente analisada sob a ótica de seus impactos sociais, éticos e culturais. Nosso projeto busca construir soluções mais inclusivas e colaborativas”, explica Marco Antônio Costa Júnior, presidente da FAPDF.
A pesquisa se concentra no campo da tradução, uma das áreas que historicamente impulsionaram o desenvolvimento da inteligência artificial. Desde 2006, os pesquisadores envolvidos no estudo trabalham no TraduXio, um sistema colaborativo que propõe um modelo alternativo aos métodos tradicionais, baseados em cálculos e previsões. “Nosso objetivo é mostrar que a conjectura pode ser mais do que um cálculo do provável – trata-se de uma interpretação cuidadosa do plausível”, destaca Philippe Claude, um dos coordenadores do projeto.
Reflexões sobre IA e direitos autorais
A iniciativa também debate questões éticas e legais relacionadas ao uso da inteligência artificial, como vieses algorítmicos e a propriedade intelectual. Segundo os pesquisadores, muitas das tecnologias atuais ignoram direitos autorais e acabam invisibilizando o trabalho humano.
Um exemplo disso ocorreu com as ilustrações inspiradas no Studio Ghibli. A popularização da ferramenta gerou polêmica depois que Hayao Miyazaki, um dos fundadores do estúdio, criticou o uso da IA na animação, classificando a prática como um “insulto à própria vida”.
Para os responsáveis pelo estudo, é essencial conscientizar a comunidade acadêmica e os formuladores de políticas públicas sobre a necessidade de tecnologias que priorizem a colaboração humana. “Automatização não deve ser a única abordagem possível. Podemos criar ferramentas que auxiliam na interpretação e no processo decisório, fortalecendo a inteligência coletiva”, ressalta Philippe.
No debate sobre direitos autorais, o especialista alerta que muitas inteligências artificiais operam sem respeitar licenças existentes. “Os algoritmos são treinados a partir de dados disponíveis na web, mas acessível não significa domínio público. A Wikipedia, por exemplo, é protegida por uma licença específica. Quando uma IA utiliza essas informações sem respeitar tais regras, está gerando um produto derivado sem autorização”, explica.
O impacto da IA sobre diversas profissões, como dublagem e tradução, também preocupa pesquisadores. “Quando um sistema usa essas referências para treinar, ele cria algo novo sem observar as regras de licenciamento. É por isso que vemos riscos concretos para muitas carreiras”, conclui Philippe.
*Com informações da Agência Brasília
Foto: Divulgação/FAPDF