
Compra do Master pelo BRB: homem de Paulo Guedes atua para BTG deixar parte podre ao governo do DF
2 de abril de 2025 17:52A zona cinzenta em torno do anúncio feito pelo governador Ibaneis Rocha (MDB) de que o Banco de Brasília (BRB), que pertence ao governo do Distrito Federal (GDF), negocia a compra do Banco Máster, do “lobo da Faria Lima” Daniel Vorcaro, se torna cada dia mais densa e encobre uma série de interesses, sendo que alguns deles passeiam despercebidos pelo calçadão do Leblon, no Rio, e pelos cafés da Faria Lima, na capital paulista.
Na sexta-feira (28), o governador do DF anunciou a sinalização de compra de 49% das ações ordinárias, 100% das ações preferenciais e 58% do capital total do Banco Master – num montante que deve chegar a R$ 2 bilhões.
A medida faria parte de um acordo para que o BRB não teria direito a voto e Vorcaro assumisse a Presidência do Conselho de Administração, passando comandar a instituição estatal a partir da massa resultante da fusão.
Para obter o aval do Banco Central e viabilizar o negócio, dirigentes do Banco Máster se comprometeram a fazer um aporte de R$ 2 bilhões. A operação foi anunciada ao mercado pelo BRB em meio às tratativas de Vorcaro com o presidente do BC, Gabriel Galípolo.
Após reunião com o presidente do BC, nesta terça-feira, 1º de Abril, o Máster, de Vorcaro, anunciou lucro de R$ 1 bilhão em 2024, quase o dobro do registrado no ano anterior: R$ 523 milhões.
No comunicado, o Máster ressaltou que o lucro vem principalmente das operações no Varejo, em especial com a ampliação da cesta de crédito consignado – que tem lastro em folhas de pagamento, por exemplo.
BTG
A divulgação do balanço aconteceu em meio às negociatas de Vorcaro com André Esteves, do Banco BTG Pactual, que antes do anúncio feito por Ibaneis sobre a compra pelo BRB, havia oferecido R$ 1 para assumir a obscura contabilidade do Banco Máster. Em desespero, a instituição chegou a oferecer taxas de até 140% do CDI em seus CDBs para tentar captar recursos e evitar a à insolvência, a quebra da instituição.
O lucro anunciado pelo Máster é insuficiente para cobrir a farra da taxa de 140% e coloca ainda mais névoa na negociação obscura com o governo do Distrito Federal. O próprio balanço patrimonial da empresa mostra que o banco tem que pagar R$ 7,6 bilhões em CDBs e CDI até junho deste ano. Dinheiro que não tem em caixa.
É ai que entra a “expertise” de André Esteves, herdeiro de Paulo Guedes, que atua como conselheiro pessoal no BTG Pactual.
Em reunião com Vorcaro, Esteves teria oferecido o aporte que falta para completar os R$ 2 bilhões afim de viabilizar a venda pelo BRB. Em troca, o BTG assumiria a carteira de crédito consignado do Máster – que tem lastro e, justamente, o que teria gerado “lucro” e evitado a quebra do banco já em 2024, segundo o próprio balanço da Instituição.
Para viabilizar a oferta, Esteves contou com um homem de confiança de Paulo Guedes, que subiu na estrutura e chegou a Advogado-Geral da União (AGU) no governo Jair Bolsonaro (PL) após atuar como braço direito do então ministro da Economia.
Guedes, como todo o mercado sabe, segue dando cartas no BTG. Tanto que ensaiou um acordo para ser sócio da Legend Capital, uma gestora de fundos afiliada ao BTG.
Em março de 2024, no entanto, o ex-super-ministro da Economia anunciou que atuaria como conselheiro sênior da Legend, “posição a partir da qual permanece atuando em temas estratégicos e pontuais, até pela proximidade longeva com os sócios”, segundo nota divulgada pela assessoria dele.
Para seu lugar, na Presidência do Conselho da Legend, escalou Daniella Marques, uma fiel escudeira desde os tempos em que ele atuava no mercado financeiro e que chegou ao comando da Caixa Econômica Federal (CEF) no governo Jair Bolsonaro.
O homem de Guedes
Mesmo ocupado com caminhadas no calçadão do Leblon e com o fundo de investimentos YvY Capital, que montou colegas do governo Bolsonaro – como o ex-presidente do BNDES, Gustavo Montezano -, Guedes acompanha toda a negociata de Esteves com Vorcaro bem de perto.
Segundo coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo, Esteves está sendo assessorado no tema por Bruno Bianco, que no governo Bolsonaro ganhou o apelido de Mickey da Previdência, pela voz peculiar, quando promoveu o desmonte do sistema de aposentadorias atuando como secretário especial adjunto de Previdência e Trabalho de Paulo Guedes.
No cargo, ele ganhou a confiança de Guedes e chegou a AGU após a nomeação de André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal.
Fora do governo, Bianco pediu exoneração da carreira pública de procurador federal seis meses após ser contratado para a função de gerente sênior de relacionamento do banco BTG Pactual.
Como consultor de Esteves, Bianco realizou uma due dilligence – uma espécie de arapongagem, no termo corporativo – dos negócios de Vorcaro, como participações em companhia de etanol.
É por meio da espionagem de Bianco que Esteves fará a oferta final para ficar com o crédito consignado do Máster e viabilizar a entrega da massa podre do banco ao governo Ibaneis Rocha no Distrito Federal.
Segundo o colunista d’O Globo, “um grupo de políticos ligados a Vorcaro, todos do Centrão, são contrários a que o dono do Master feche negócio com Esteves”.
Nesta terça-feira, o Ministério Público do Distrito Federal instaurou inquérito civil “para apurar as circunstâncias de compra e venda de ações” do Banco Master pelo BRB.
O inquérito foi aberto de ofício, ou seja, sem provocação externa, e será conduzido pela Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e Social, para tentar dissipar a névoa sobre a negociata.
O MP que atua no Tribunal de Contas do Distrito Federal abriu um procedimento para investigar a operação, já que o BRB tem como maior acionista o governo do DF.
Foto: Alan Santos/PR
Reprodução/Revista Fórum